terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Crônicas de 88 IV

O caldo engrossa
(Chegam os Têxteis!)


Os trabalhadores têxteis da Cia. De Fiação e Tecidos Santa Rosa tanto quanto os metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas não mais suportavam a pressão da empresa e o descaso da Direção do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis de Valença. A empresa sempre querendo mais e o Sindicato... Bem, este, mantendo-se sempre distante das reivindicações da peãozada, parecendo mais um sindicato patronal do que um Sindicato de trabalhadores, eternizava seu peleguismo tendo a frente um Presidente de sobrenome "Paixão".
Em todo o tempo em que esteve Presidente do Sindicato, não se tem notícia de uma só vez em que o Paixão tenha falado em greve ou qualquer movimento capaz de alterar as relações estabelecidas com os empresários locais. Assim como não se tem notícia de disputas entre chapas nos processos eleitorais por ele capitaneados (neste e nos demais pontos, o Paixão segue à risca o que seus antecessores fizeram). Estas e outras práticas, vendidas como inerentes à uma categoria "cordata", "pacífica" e "ordeira", tinham por finalidade manter os trabalhadores nos limites da ordem patronal. Assim, qualquer proposta de greve ou qualquer movimento reivindicatório apresentado à Direção, era imediatamente visto como subversivo e contrário à paz social. Não era bem esse o ponto de vista dos trabalhadores...
Naquele 30 de novembro os operários têxteis de Valença percebiam que havia outro caminho. Que não precisavam continuar calados e, até certo ponto, omissos, enquanto eram usurpados em seus direitos. Os metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas naquele momento davam o tom e apontavam o rumo: se o Paixão não queria, iriam sem ele! E tentaram fazer com que ele se sensibilizasse através de uma comissão formada por membros da Direção do Sindicato dos Metalúrgicos e Companheiros têxteis ligados ao Sindicato (inclusive um membro da Direção do Sindicato dos Têxteis, o Ori, fazia parte desta Comissão), sem, no entanto, conseguir êxito. Paixão foi irredutível. Preferiu ser "atropelado" pela categoria com o argumento de "ilegalidade" daquela greve.
Mais do que "sensibilizar" o Paixão, o que os dirigentes daquele movimento queriam era garantir a participação de alguém, numa possível negociação com o empresário, com um mínimo de representatividade legal (discutível, é claro!), já que sua ausência poderia ser empecilho à resolução do impasse criado com a greve. Assim, era racional querer o Paixão junto com os possíveis têxteis grevistas, não se tratando, portanto, de nenhuma questão política essencial ao movimento. Os Têxteis viriam para a greve mesmo sem o aval da Direção do seu Sindicato.
As conversas com os trabalhadores têxteis começaram tão logo a greve teve início. Os têxteis que saíram às 13:20 horas já entravam no clima, antecipando o que iria ocorrer mais tarde. E o que se esperava aconteceu. Um grupo de Companheiras e Companheiros têxteis, ainda engasgados com tudo que havia ocorrido durante a Campanha Salarial passada, assumiu a tarefa de, juntamente com os Metalúrgicos já em greve, estender o movimento à Cia. De Fiação e Tecidos Santa Rosa. E às 21:40 horas daquele 30 de novembro de 1988, os têxteis de Valença conheciam sua primeira greve em quase cinco décadas. O discurso era o mesmo para metalúrgicos e têxteis: a greve era a única forma de garantir nosso direito constitucional à uma jornada de 44 horas semanais de trabalho, segundo o nosso entendimento. O discurso convenceu.


No dia seguinte todo o grupo Santa Rosa estava envolvido por aquele movimento um tanto quanto "louco". As Fábricas 01 e 02 também tiveram suas atividades paralisadas pela ação dos piquetes e grupos de "convencimento" criados pelos Companheiros da Fábrica 03 e da Santa Rosa Máquinas. A partir daquele dia, e durante toda a duração da greve, tornou-se comum ver, circulando pelas ruas do centro da cidade, grupos de operários deslocando-se de um ponto a outro na intenção de garantir a continuidade da greve numa ou noutra unidade fabril. Também se tornaram corriqueiras as passeatas pelo Centro, as manifestações no Jardim de Cima, as demonstrações de solidariedade aos trabalhadores em greve e tudo o mais que uma greve daquela natureza pode suscitar na população de uma cidade como Valença. Também durante a greve a Praça Paulo de Frontin (Jardim da Estação), em frente à Fábrica 03, tornou-se ponto obrigatório para todos aqueles que queriam inteirar-se sobre a greve: passantes, curiosos, estudantes, trabalhadores de outras empresas, toda a sorte de pessoas aparecia no Jardim da Estação e na Rodoviária para "ver" o movimento. Ali, no Jardim da Estação e suas imediações, os grevistas viveram seus melhores e piores momentos daquele movimento histórico, que chamou atenção da população valenciana, definitivamente, para os problemas enfrentados pelos trabalhadores têxteis e metalúrgicos do Grupo Santa Rosa.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Crônicas de 88 III

O sonho do Zé Preá

Assim como o Ursinho, outros operários mostravam características marcantes. E esses, por conta de tais características ou não, ganhavam apelidos os mais diversos. Aliás, o mundo das fábricas é fértil para esse tipo de coisa. O trabalhador chegava e pronto, já era logo batizado. Os apelidos variavam enormemente, tanto quanto a forma como quanto ao conteúdo que representavam: Ursinho, Meião, Zé Ruela, Zé Preá, Zé Boceta, Feijão, etc. Alguns apelidos nada tinham a ver com o seu proprietário. Era o caso do Zé Preá.
O preá, como todo mundo sabe (e se não sabe, vai saber agora!) é um animalzinho roedor com calda atrofiada (segundo o Aurélio) parecido com um hamster, só que um pouco maior. É parecido também com o chamado “porquinho da índia”, sendo que as diferenças maiores estão na cor do pêlo e no caráter doméstico do “porquinho”. Entre as características comuns está a rapidez com que se movimentam, nunca parando muito num mesmo lugar por muito tempo. Pois é. Essa é a grande diferença entre o bichinho e o Zé. Um, rápido feito um bólide. Outro, lento, lento, caminhando sem a menor preocupação de chegar a lugar nenhum, lembrando mais um quelônio (um jabuti) do que um roedor.



Na verdade o apelido do Zé deveria estar relacionado a outras características suas, não ao seu andar. Por exemplo, à sua inteligência. Não à toa ele era um dos escolhidos do patrão para mexer nos seus carros, inclusive para auxiliá-lo na construção de máquinas super estranhas, como por exemplo um “jipão” com motor de picadeira que teve os chassis emendados e a cabine totalmente refeita dentro da Santa Rosa Máquinas. Segundo o Zé, o pior não foi trabalhar no estranho veículo, mas testá-lo nas ruas da cidade, visto que o tal carro não desenvolvia velocidade e, no trajeto de teste, estava a delegacia de polícia. O Zé tremeu nas bases ao se tornar motorista daquela “picadeira ambulante”, mas o patrão mandava...
O Zé aderiu desde o primeiro momento à GREVE. Antes mesmo de ela estar instalada freqüentava as Assembléias e discutia as suas resoluções. Não que fosse liderança dos operários, mas era guiado por um tremendo senso de justiça. Conseguia entender como poucos o que estava acontecendo e, sempre que emitia uma opinião, esta vinha carregada de sapiência e tranqüilidade. Mas a grande frase que ouvi do Zé e que se fixou em minha mente não foi nenhuma proposta revolucionária (dependendo do ponto de vista, seria!). Foi dita no primeiro dia da paralisação, quando a tarde já ia alta e, de fato, estávamos em GREVE. Num dos bancos da Praça da Estação sentávamos eu, o Zé, o Kardec, o Gilcimar e outros companheiros. A conversa, como não podia deixar de ser, girava em torno da nossa GREVE. Num determinado ponto do papo o Zé falou: “Hoje eu estou realizando um sonho antigo...” Olhamos para o Zé, aguardando a revelação: “É que, desde quando vim trabalhar nesta fábrica, tinha vontade de passar um dia inteiro sentado aqui, olhando o movimento. A GREVE tá realizando esse sonho”.
É. Além do caráter reivindicatório a GREVE trazia outros sentidos. Ela foi, por exemplo, a responsável por conhecermos melhor as pessoas com quem lidávamos diariamente. Também foi a responsável pela realização de vários sonhos, inclusive o do Zé.
Ao expor o seu sonho, Zé falava do imaginário de praticamente todos os operários daquela fábrica. Ele personificava um sonho coletivo de se rebelar contra a obrigatoriedade das oito horas de trabalho, contra as ordens da chefia, contra o mau humor dos encarregados, contra o barulho ensurdecedor da tecelagem. Enfim, o sonho do Zé revelava o nosso sonho coletivo: de, pelo menos durante a GREVE, levar uma vida igual a de nossos chefes e empregadores: ficar na praça, sem nenhuma preocupação com a produção, apenas vendo a vida passar.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Crônicas de 88 II

“CUF” taí!


30 de novembro de 1988. 13 horas. A Direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Barra do Piraí e região, tendo à frente o Companheiro Batista, realizava Assembléia com os metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas em frente aos portões da empresa. Após descrever o processo de negociação desde o seu início e apontar as possibilidades segundo o seu ponto de vista, Batista franqueou a palavra, permitindo aos presentes a exposição de suas angústias, vontades e propostas.
Dos trabalhadores vinham relatos sobre o que ocorria dentro da fábrica. Inclusive sobre a reunião feita no dia anterior dentro das dependências da Santa Rosa Máquinas, convocada pelo próprio empresário, Sr. Júlio Vito. Na tal reunião o empresário exortava seus empregados ao afastamento do Sindicato; solicitava um “vestir a camisa da empresa”; criticava políticos de esquerda (inclusive a candidata a Prefeita pelo PT, Lindsey Fernandes) e, no final da conversa, duvidava da capacidade dos trabalhadores realizarem a “tão falada” GREVE. Na verdade, a ida do empresário à fábrica demonstrava já a sua preocupação com o que poderia ocorrer. Sua leitura da realidade, embora com elementos distorcidos, era clara. Ele sabia perfeitamente que a postura dos Sindicalistas Metalúrgicos, naquele momento, mobilizaria os trabalhadores e resultaria na GREVE. E o pior: arrastaria os operários têxteis para o movimento colocando-o em posição frágil diante da sociedade valenciana.

Todas estas informações, somadas àquelas colocadas pelos sindicalistas, ajudaram a construir o caminho a ser seguido a partir dali: instalar a GREVE por tempo indeterminado na Santa Rosa Máquinas. Às 13:20 horas do dia 30 de novembro de 1988 iniciava-se um novo tempo na relação entre “Dr. Júlio Vito” e seus empregados. Lá dentro da fábrica as notícias demoraram um pouco a chegar. Um turno terminava naquele horário. Outro iria até as 17 horas e o pessoal estava em horário de almoço.

Entre os trabalhadores da SRM vários guardavam características próprias: uns gostavam de motos, outros de cavalos, uns rápidos, outros, a lentidão em pessoa. Alguns reflexivos quase não falando, outros mais expansivos. Alguns, donos de personalidade e opiniões marcantes, outros, verdadeiros “marias-vão-com-as-outras”. Uns, com a fala clara, definida. Outros, tropeçando na língua de tão rápido que falavam. Era o caso do “Ursinho”.

“Ursinho”, além da fala rápida, também gostava de cavalos. Vivia enfeitado feito cowboy: fivelas grandes, chapéu, botas. Caipirão. Pois foi ele, que nem perto do Sindicato passava, o responsável pela notícia: - “A “CUF” taí!” No primeiro momento ninguém entendeu nada. E repetia o “Ursinho” enquanto, esbaforido, andava de um lado para outro da oficina: - “A “CUF” taí!”. Alguns segundos mais bastaram para que os trabalhadores do interior da fábrica concluíssem: “A CUT taí!” Onde CUT significava a Direção do Sindicato dos Metalúrgicos de Barra do Piraí e região. E o jeito desembestado do “Ursinho” era resultado da aprovação, pela maioria dos trabalhadores presentes à Assembléia, da proposta de GREVE por tempo indeterminado na Santa Rosa Máquinas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crônicas de 88


Ao final do ano de 1988 Valença foi sacudida por duas Categorias profissionais até então adormecidas. Os Trabalhadores Têxteis da Cia Santa Rosa e os Metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas resolveram, após anos de sufocamento, dar um basta às situações vivenciadas no interior das empresas do Grupo SR. A deixa foi dada pela promulgação da Nova Constituição Federal e pelas expectativas geradas por ela. O "basta" ocorreu na forma de uma greve que durou dez dias. Durante esse tempo, denúncias foram feitas, mazelas foram expostas, e boa parte daquilo que era conhecido como "nata" valenciana revelou seus bolores.
A greve, entre outras coisas, provocou mudança radical na Direção do Sindicato dos Trabalhadores Têxteis, já que, da greve despontaram lideranças capazes de assumir tal Direção.
O presente projeto já existe há algum tempo. Inicialmente concebido como livro de crônicas, hoje ganha as páginas deste Blog. Expor aqui o material já produzido permitirá aos possíveis leitores a possibilidade de opinar ou, até mesmo, colaborar com informações que possam ser agregadas e traduzidas em outras crônicas.
Para começar, publicarei a Introdução e o primeiro capítulo. Semanalmente, se possível, publicarei os demais capítulos. Comentários, críticas e sugestões serão de bom alvitre. Espero que venham!


Crônicas de 88

(Histórias da Greve na SR Máquinas e Cia de Fiação e Tecidos Santa Rosa)




Introdução
(A Constituição cidadã)


Outubro de 1988, Valença, interior do Estado do Rio de Janeiro.
Assim como no resto do país, a população da cidade (principalmente a parcela que trabalhava nas fábricas de tecido) aguardava ansiosa os reflexos da promulgação da Constituição Federal, chamada pelo saudoso Dr. Ulisses Guimarães de “a Constituição cidadã”.
O destaque aos trabalhadores das fábricas de tecido é por conta da relação quase feudal mantida por alguns empresários do setor, o que dava aos tais operários uma qualidade de vida horrível, obrigados que eram a suportar exaustivas jornadas de trabalho, salários de fome, ameaças, altos níveis de insalubridade e, no caso das mulheres, incontáveis casos de assédio sexual advindos, principalmente, de chefes imediatos.
Embora a criação das principais empresas têxteis de Valença date do início do século passado, as relações internas a estas e destas com a cidade mantiveram-se inalteradas por todos esses anos. Os empresários, na ótica de grande parte da população, foram elevados à categoria de “beneméritos” pelo fato de “manterem os empregos dos pobres” e desenvolveram verdadeiras relações de compadrio com os operários, seus familiares e demais protegidos. Desta forma, acabaram os empresários, durante muito tempo, ficando acima do bem e do mal, inquestionáveis assim como suas práticas, deixando o papel de vilão para os encarregados, os chefes, enfim, para seus asseclas que assombravam, noite e dia, operários e operárias.
Embora fossem muitos os problemas vividos por trabalhadores e trabalhadoras das fábricas de tecido de Valença, um serviu de carro-chefe para o movimento paredista que se desenrolou naquele início de dezembro de 1988: a jornada de trabalho! É que, até a promulgação da nova Constituição, a jornada de trabalho legal era de quarenta e oito horas de trabalho semanal, sendo a jornada diária de oito horas. O Congresso Constituinte eleito em 1986, pressionado pela atividade do movimento sindical, reduziu a jornada semanal para quarenta e quatro horas e, a partir daí, instalava-se um questionamento na cabeça dos operários têxteis de Valença, principalmente na dos empregados da Santa Rosa: como seria a nova jornada semanal de trabalho? O questionamento era pertinente, pois, na visão dos operários, a nova Constituição vinha para melhorar a vida de todos. Portanto, nada mais justo que serem ouvidos (pelo menos isto!) e, em conseqüência, terem acatada a proposta corrente: a redução, em quatro horas, da jornada dos sábados, o que resultaria em mais descanso nos finais de semana. Afinal, se a Constituição era “cidadã”, que pecado havia em se exercer a cidadania? Mas não era bem este o entendimento da empresa!
Segundo os administradores da Santa Rosa Máquinas e da Cia de Fiação e Tecidos Santa Rosa, desde que fosse preservada a jornada semanal de quarenta e quatro horas, a redução poderia ser feita de outra forma, não necessariamente nos sábados. E a empresa, sem nenhuma conversa ou mesmo consulta aos seus operários, implantou uma jornada diária de sete horas e vinte minutos, preservando as quarenta e quatro horas semanais constitucionais mas entrando, definitivamente, em conflito com seus empregados. O que se observou na diferença das propostas foi, claramente, um choque entre a letra e o espírito da lei. A Constituição não trouxe, em nenhum artigo, obrigatoriedade para os empresários em ouvir, menos ainda em acatar propostas dos trabalhadores. Também não definiu a Lei Maior de que forma a nova jornada deveria ser implantada. Mas, às vésperas do século XXI, tendo sido a redução da jornada fruto da pressão do movimento sindical e tendo a mesma também o caráter de gerar empregos, a lógica nos permitiria acreditar que o processo de mudanças fosse diferente. Ainda que contasse com um Sindicato “pelego”, a Categoria certamente criaria seus interlocutores e teria condições de entabular negociações. O resultado, fosse outra a forma de instalar a nova jornada, poderia, inclusive, resultar na criação de novos postos de trabalho, melhorando o nível de vida da população valenciana mas, o que se viu foi o oposto. Ali, no momento de decidir de que forma as coisas seriam feitas, o empresário fez a opção de desmascarar-se! O choque que se seguiu e que resultou na GREVE iniciada em 30 de novembro na Santa Rosa Máquinas estendendo-se à Cia de Fiação e Tecidos Santa Rosa, e que durou até 09 de dezembro de 1988, deixou claro para Valença exatamente quem era o “Dr. Júlio Vito”. Deixou claro também que a era de peleguismo vivida pelo Sindicato da Categoria estava prestes a terminar. É esta história que pretendo, através destas crônicas, contar a partir de agora.


Sábados Rebeldes

Há muitos anos a data- base dos trabalhadores têxteis de Valença é 1º de outubro. Em 1988 não foi diferente. Assim como não foi diferente a maneira de conduzir a campanha salarial pelos Diretores do Sindicato da Categoria: Assembléias convocadas, trabalhadores comparecendo ao Sindicato e, no fim das contas, tudo como antes, ou seja, acordo fechado entre patrões e Sindicato sem a real interferência dos trabalhadores. Mas já havia algo de novo no ar.
A expectativa das novidades trazidas pela Constituição a ser promulgada somada à situação vivida pelos operários têxteis de Valença, mobilizou-os ainda mais. Eles compareceram em massa às Assembléias convocadas e até chegaram a pensar que naquele 88 seria diferente. Que nada! O Acordo foi assinado como sempre; nenhum ganho além das obrigações legais. Com relação à nova jornada de trabalho então, nada se falou. A panela ia ferver!
Dentro da Cia Fiação e Tecidos Santa Rosa o caldo engrossava a olhos vistos. Lideranças já despontavam e as defesas por uma nova acomodação da jornada de trabalho já se tornavam públicas. Também na Santa Rosa Máquinas as conversas ganhavam corpo mas, diferentemente da situação dos operários têxteis, os metalúrgicos contavam com a direção do Sindicato. Este, com sede em Barra do Piraí, promovia reuniões com os trabalhadores e tentava negociar a implantação da nova jornada com o empresário, sem, no entanto, obter sucesso. No meio dos metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas a conversa também se avolumava, embora não houvesse um grau de coesão alto. A proposta de GREVE já era tida como certa.
A Direção do Sindicato dos Têxteis, tendo concluído a Campanha Salarial, deu as costas à Categoria no tocante à discussão da jornada de trabalho. Os trabalhadores buscaram, então, por conta própria, seus rumos. Os sábados iriam se tornar infernais para os encarregados e chefetes. Como a proposta defendida pelos operários visava reduzir as horas nos sábados, era chegar o fim de semana e começar a loucura: a “peãozada” pressionava a chefia que, sem ter como evitar, acabava “permitindo” a saída dos trabalhadores, o que, na prática, representava uma redução na jornada, ainda que oficiosamente. Durante alguns sábados o horário passou a ser definido pelos trabalhadores da seguinte forma: os operários do 1º turno (que pegavam às 05:00 da manhã), às 09:00 fechavam o ponto e saiam. Os do 2º turno (entravam às 13:20) faziam a mesma coisa quando batiam as 18:00 horas.
Esta situação desenrolou-se por alguns sábados nos meses de outubro e novembro de 88 e, de certa forma, servia para apontar que algo mais iria acontecer caso nada fosse feito. Os trabalhadores chegaram, inclusive, a pressionar a Direção do Sindicato dos Têxteis para que esta se posicionasse encampando a proposta dos operários. Uma reunião ocorreu, em pleno Jardim de Cima, no dia 15 de novembro (dia das eleições municipais) com a intenção de demover o Presidente do Sindicato dos Têxteis de sua postura omissa. Não adiantou. O sujeito manteve o argumento de que o momento para aquela discussão havia se passado com o término da campanha salarial e nada mais fez.
Com relação aos metalúrgicos da Santa Rosa Máquinas, as tentativas de negociação continuavam. A Direção do Sindicato solicitava, a empresava aceitava conversar mas, de concreto nada surgia. Após cada conversa com o empresário, nova Assembléia com os trabalhadores. Estes começavam a entender que a intenção do empresário era “ir empurrando a Categoria com a barriga”, até que, vencida pelo cansaço, parasse de perturbar. Por seu lado, a Direção do Sindicato dos Metalúrgicos amadurecia, juntamente com os operários, a idéia de realizar uma GREVE para garantir a instalação das quarenta e quatro horas semanais previstas na Constituição da maneira que os trabalhadores queriam.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Endereços para material da greve dos Profissionais de Educação do RJ

http://www.facebook.com/media/set/?set=oa.203799219670440&type=1
http://www.facebook.com/media/set/?set=a.214492051936803.63903.100001280297501&type=1
http://www.youtube.com/watch?v​=smd3phbLTtY
http://www.youtube.com/watch?v=yeH0M4nMeFg
http://www.youtube.com/watch?v=vrCAy9mcvyw
http://www.youtube.com/watch?v=itMxW8SV2zw
http://www.youtube.com/watch?v=jn81WX17MS0
http://www.youtube.com/watch?v=xcRSUIdQ9rc
http://www.youtube.com/watch?v=pwmyez3LU2A
http://www.youtube.com/watch?v=sKdRJCKK9tc
http://www.youtube.com/watch?v=smd3phbLTtY

domingo, 31 de julho de 2011

Companheiro!

Companheiro!

Cum pango!
Prega, traça, escreve!
Marca, delineia, planta!
Compõe, celebra, canta, promete, confirma!

Este é um Companheiro:
Pregando o que acredita traça com os demais o caminho a seguir enquanto escrevem a história.
Se as estradas são tortuosas, define os marcos, delineando os espaços a serem ocupados enquanto planta esperanças.

Sabedor de que o “caminho se faz ao andar” e que, portanto, a luta se faz ao lutar, compõe hinos à audácia e à coragem dos que seguem juntos;
celebra as vitórias próximas tanto quanto as derrotas vencidas;
canta a proximidade de novas batalhas pois elas significarão a continuidade da vida;
promete o futuro como quem o já viveu confirmando que lá, com certeza, toda vida será melhor!
Sem promessas vãs, o Companheiro é solene em seus compromissos assim como com suas crenças, sacralizando o outro como o máximo pelo qual se deve lutar.

Cum Panis!
Companheiro é íntimo, profundo e por isso partilha o pão, o ombro, a palavra!
Convive para sustentar e se sustentar: a partilha é linha de mão dupla, pois enquanto nutre é nutrida.
Concreto, o pão, alimenta físico e alma. Abstrato, preenche sonhos e buscas, permite rotas e vôos, planos e pousos.

Este é um Companheiro!
Sem ele nenhuma caminhada teria sentido e toda luta seria vã;
Sem ele nenhuma luz clarearia bastante e toda estrada seria longa demais;
Com ele todo fardo é leve, todo frio é ameno e nenhum calor é insuportável;
Com ele todo riso é alegre, todo abraço é pleno e todo desejo é possível!
(Gilson L Gabriel)

domingo, 10 de julho de 2011

Indignação

O texto que se segue, belissimamente produzido, diga-se de passagem, é obra do Prof Ms Raimundo Mattos. Nele, expõe sua indignação quanto à suposta "indignação" do Secretário Estadual de educação. Fala por nós já que muitos gostaríamos de dizer o que está dito ali. Boa Leitura.


INDIGNAÇÃO

Li no site da Secretaria Estadual de Educação que o senhor Secretário está indignado com a utilização do cartão enviado aos professores no valor de R$ 500,00 em compras de supermercados, quando o mesmo deveria ser utilizado para aquisição de material cultural destinado à melhoria da formação dos professores. Tem toda a razão o senhor Secretário, mas... Mais indignado fiquei eu quando:
- constatei que, sem querer eximir alguém de ter usado indevidamente o cartão, vários professores se viram obrigados a lançar mão de tal expediente para poderem completar os vencimentos mensais, uma vez que o salário pago não é suficiente mais para o mês;
- vi que professores foram acusados sem uma prova material do uso indevido do cartão, apenas pelo que se ouviu dizer;
- o dito cartão, alardeado desde o final do ano passado, ter passado por uma série de promessas e ter chegado exatamente quando os professores entraram em greve;
- vejo minha escola, patrimônio histórico da cidade, com sua bela escada de madeira escorada, seu segundo andar embargado pelos riscos que oferece à segurança de professores, funcionários e alunos;
- me lembrei que, em 2004, mais precisamente no dia 12 de dezembro, por ocasião da reabertura da Catedral, escutei do então Secretário de Cultura, Professor Arnaldo Niskier que, no ano seguinte teriam início as obras de restauração do prédio da escola (eu estava ao lado dele);
- essa mesma escola onde estudei por 9 anos estar já há vários anos sem uma reforma sequer, tendo o governo estadual enviado funcionários para começar a restauração, estes terem posto abaixo o seu antigo pátio interno e irem embora;
- para podermos ter aulas, fomos obrigados a utilizar um esqueleto de anexo sem condições de uso;
- finalmente, após apelos de pais, professores e direção, após a queda de uma viga na cabeça de uma professora, a obra do anexo ter início e, em menos de um semestre de uso, já apresentar uma série de problemas estruturais e a restauração do prédio principal continuar na memória do Professor Arnaldo Niskier;
- o abono do malfadado Programa Nova Escola foi finalmente anexado ao salário, em suaves prestações anuais, terminando em 2015 e ser anunciado como ganho dos professores;
- entro em salas de aulas lotadas, sem condições de trabalho nem de se conhecer minimamente os alunos;
- criou-se um novo programa de abonos, também alardeado aos quatro ventos, levando professores com salários defasados a comemorarem um hipotético décimo quarto salário no final de 2012, depois de vencidas incontáveis metas durante dois anos;
- escutei que professores e funcionários devem se vigiar mutuamente a fim de denunciar erros dos colegas que não estariam cumprindo as metas;
- vi que a legislação não está sendo cumprida pelo governo ao enviar um currículo mínimo desrespeitando o fato de que a LDB permite às escolas organizar o seu currículo com base nas diferenças regionais do estado;
- fui informado que teria que cumprir, em um ano, um currículo mínimo para dois, com duas aulas por semana, tendo que dar três avaliações com suas respectivas recuperações, o que consome seis semanas por semestre;
- vi que aos alunos são dados todos os direitos sem nenhum dever e aos professores, todos os deveres, sem nenhum direito;
- constatei que direções de escolas, regionais e Secretaria de Educação, no programa de metas, terão a única função de fiscalizar o trabalho dos professores, quais feitores modernos;
- entendi que o tal programa de metas foi estruturado por um grupo de tecnocratas, que diz ter ouvido alguns professores, confortavelmente aboletados em escritórios, longe das salas de aula, desconhecendo por completo a realidade de escolas, alunos e professores;
- ouvi o senhor Secretário de Educação alardear que as escolas estão sendo devidamente reformadas, ao mesmo tempo em que entro todas as semanas em uma escola cujo segundo andar está escorado para não oferecer riscos.
Mas... o que é a minha indignação diante da indignação do senhor Secretário de Educação?

Raimundo César de O. Mattos
Prof. da rede estadual de Educação

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Carta do Professor Márcio Fazenda aos professores

Somente quando nos sensibilizamos tomamos atitude. A presente carta tem esta prerrogativa: nos toca fundo diante da necessidade de lutar para, no mínimo, garantir o que já é nosso. E, na tentativa de reproduzir essa sensibilização, posto a carta aqui neste espaço. Boa leitura e sensibilizem-se todos!

Incomoda-nos somente aquilo que precisa mudar

Caros colegas:

As condições atuais de trabalho não são satisfatórias nem saudáveis. Se já havia um desgaste em nosso ofício, pela energia dispensada, pela crescente falta de reconhecimento político-social, há agora muito mais, em que a educação é ranqueada e a competitividade é progressiva, sem os sorrisos de outrora, sem as amizades fortalecidas, sem o lúdico tão imprescindível no processo educacional. O que será de nós quando a Escola tornar-se, de fato, Empresa? Quando só valer o projeto e a atenção que grandes grupos derem a ele? Quando todo o ensino for técnico e os sentimentos ignorados? O que será de nós?

Não protestar porque já se protestou com insucesso não justifica a impassibilidade. O posicionamento não é o mesmo, porque a imposição é outra, renovada, silenciosa, corruptível. Imposição não norteia Educação, tampouco sufocamento por excesso de afazeres, muitos dos quais nem de alçada nossa são, como conexão "virtual" professor e suas notas.

A triste realidade é que não estamos conectados neste momento. E nunca mais estaremos com a vigência do Plano de Metas. Conclamemos os guerreiros do passado, os nossos modelos que nos inspiraram por sua firmeza e comprometimento. Será melhor parafrasear os velhos versos de Belchior "como Poe, poeta louco americano, que pergunta ao passarinho: Black Bird, o que se faz? No presente a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais"? Precisamos nos mesclar, nos misturar. Opinemos. Refinemos o discurso do movimento para que erros não sejam cometidos e não seja perdido o foco, a causa da manifestação, que é legítima e justa. Juntemo-nos aos jovens professores, para que estes não se envergonhem de nós. Render-se sem luta, aceitar sem questionamento, reduzir-se a números são desvalores sem precedentes. São problemas que precisam ser resolvidos através de manifestações com altas vozes, e não "sussurros pelos cantos". Diz a máxima que "todo problema tem jeito. O único irremediável é a morte". E nós não estamos mortos. Ou estamos?

Professor Márcio Fazenda

Valença, 16 de junho de 2011

terça-feira, 14 de junho de 2011

Greve na educação continua!

http://www.youtube.com/watch?v=CzYa4vJLoN0

Letra punk rock em homenagem ao Giovanni Nogueira e aos professores em greve

"Na minha escola não tem merenda boa;
na minha escola o professor ganha mal;
na minha escola não tem biblioteca mas tem desrespeito e retrato do Cabral.
Na minha escola tem ameaça;
na minha escola tem listinha de metas;
na minha escola o SEPE não entra porque a truculência contra ele é animal.
Na minha escola professor tá com medo
de perder aquilo que nunca ganhou;
e tá com medo de mais uma vez ser culpado por tudo
e pelos erros de um mundo que ele não criou."

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Discussão sobre política de cotas na 3ª série do EM

A partir da questão "Existe democracia racial no Brasil?", os alunos da 3ª série estão produzindo um trabalho e um debate acalorado se avizinha. E as surpresas boas já começam a surgir: Natália, da 3002, repassou este texto que julguei interessante. Compartilho-o então com mais quem interessar possa.



A Política de Cotas nas
Universidades Públicas Brasileiras

Carlos Ignácio Pinto
carlos@klepsidra.net
Bacharel em História / USP
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Muitas pessoas se assustam ao ouvirem a idéia de criação de cotas para negros nas universidades públicas Brasileiras. Este artigo busca compreender o medo e a falácia que giram em torno das cotas, bem como demonstrar minha sincera opinião sobre o sistema de cotas no Brasil, e de como o compreendo dentro de um universo muito maior de uma série de correções de nossa sociedade tão “democrática” e “anti-racista”.

Há mais ou menos um ano tenho trabalhado como professor colaborador do cursinho para população carente do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo, entidade referencial na luta contra o preconceito racial no Brasil, ministrando as aulas da disciplina de História Geral. Neste universo, me deparei com situações que puseram abaixo tudo o que pensava até então sobre o sistema de cotas para negros nas universidades públicas brasileiras. A diferença se pautou em algo extremamente relevante: a passagem do discurso teórico que até agora tinha, para a prática; aquela que me defrontou com uma verdade bem mais latente e contundente do que aquelas demonstradas por muitos demagogos (como até aquele momento acredito ter sido) ou inocentes (o que não acredito muito) em seus discursos.


Martin Luther King, o assassinado líder negro dos EUA
Os discursos contrários à política de cotas se pautam basicamente em dois elementos que não se sustentam: o primeiro seria que ao invés do ingresso de negros através da política de cotas, o fundamental seria a melhoria substancial do ensino médio no Brasil que garantiria uma equiparação de saberes para os alunos que pretendem ingressar em uma universidade através do vestibular; e o segundo, como desdobramento do primeiro, seria que no Brasil a diferenciação entre os ingressantes em uma universidade e aqueles que não conseguem sucesso no vestibular estaria pautada na diferença econômica, ou seja, a entrada em uma universidade pública dependeria exclusivamente do poder aquisitivo do aluno e a economia despendida em sua formação escolar.

Estes dois argumentos fazem parte do discurso comum, daqueles que se pronunciam contrários ao sistema de cotas e não possuem muita coisa a acrescentar; o primeiro argumento de que “é necessário uma melhoria do ensino no Brasil” é um discurso de décadas, ou seja, aguarda-se a melhoria também a décadas ao passo em que a exclusão permanece; defendemos tal argumento e o que se apresenta como proposta para que isto se efetue? Quase nada! Não peça aos movimentos de inserção do negro que abandonem suas políticas efetivas em troca da espera; não espere a acomodação na esperança da equiparação da formação escolar dos alunos oriundos de escolas públicas em relação aos oriundos de escolas particulares. A exclusão do negro da Universidade Pública é latente!!!!!!!! Percebam o perigo deste argumento, na medida em que nos reduz a paciente do processo, sendo que o que a comunidade negra no Brasil precisa é da aplicação de medidas imediatas, independente se for para reparação do mal que se faz até hoje a esta comunidade ou se para realmente começarmos a dar um fim a exclusão do negro no ensino superior brasileiro.

Sobre o segundo argumento que trata sobre a desigualdade social, mas é claro que o pobre é que não consegue ingressar em uma universidade pública, entretanto mesmo entre os pobres, o número de negros pobres está 47% acima dos brancos, ou seja, existem mais pessoas miseráveis negras do que brancas, e entre estas, os negros são os de menor salário e poder aquisitivo; a remuneração para um mesmo cargo é diferente entre negros e brancos. A maioria (na realidade, uma minoria) dos alunos oriundos de escolas públicas que conseguem entrar em uma universidade pública no Brasil são brancos, ou seja, mesmo entre aqueles que conseguem vencer a diferença, os negros são minoria.

Você que está lendo este artigo e estuda em uma universidade pública, ou até mesmo privada no Brasil, repare a sua volta em sua universidade, e veja a gritante diferença entre o número de negros e brancos. Desigualdade Social? Também, mas muita desigualdade racial presente.

Recentemente lendo um artigo de um jornal universitário chamado Revelação da Universidade de Uberaba, de autoria do aluno Rodolfo Rodrigues do 6º período de Jornalismo[1], me assustei; o artigo que tentava combater a política de cotas, envolvia todas estas idéias do discurso comum e algumas outras muito piores, com todo o respeito ao colega. Este citava em seu artigo (além do ideário comum) a idéia de que biologicamente somos todos iguais e por isso não poderia se estabelecer as cotas e que o negro apenas precisaria de seu esforço e dedicação para ingressar em uma universidade pública!

Caro Rodolfo e aqueles que pensam como ele, é lógico que somos muito parecidos geneticamente falando, entretanto, ao contrário de sua “democracia biológica” o preconceito e o racismo no Brasil estão pautados pela cor que o negro traz em sua pele e não no sangue que corre em suas veias e, por favor, se ainda existe a crença de que a única diferença entre os alunos que entram em uma universidade pública e aqueles que não ingressam, está pautada no esforço e dedicação que estes desprendem em sua preparação para o vestibular, gostaria que estes fizessem uma visita a minha turma no Núcleo de Consciência Negra aqui da Universidade de São Paulo e separassem os que não trabalham, os que não ajudam em casa e os que sustentam famílias, ou seja, possuem muito mais obrigações do que aquelas impostas pelo vestibular. A diferença está na dedicação? Aquele que ainda não ingressou no mercado de trabalho ou que não tem obrigações para com sua família é um maior merecedor da vaga na universidade porque se “dedicou”?????? Convenhamos, se este poder fosse me dado, eu estaria muito mais propenso a colocar o aluno trabalhador em uma universidade, se o mérito for a dedicação, do que o aluno que pode dedicar-se integralmente ao vestibular tendo como estrutura educacional bons colégios particulares.

No mesmo artigo, há uma foto em destaque com uma aluna negra do 3° período de Comunicação Social da mesma Universidade, e ao seu redor 5 alunos brancos, com os seguintes dizeres “A estudante ..... ingressou na Universidade sem precisar se valer das cotas.”. O que me causou estranheza foi o fato do próprio autor do artigo corroborar com a idéia de que são pouquíssimos negros dentro de uma Universidade Pública no Brasil, através desta foto que possui uma maioria de alunos brancos, sendo ela a única negra do grupo!

Como dito anteriormente, a questão do negro na Universidade Pública no Brasil é bem mais complexa do que a simples compreensão da desigualdade social, polarizada entre pobre e ricos, compreensão esta que por muito tempo engessou e engessa as reivindicações de uma maior igualdade da comunidade negra no Brasil. É o discurso comum presente até mesmo dentro das universidades que por vocação, teriam de se libertar destas amarras.

Recentemente, a USP tem realizado obras na intenção de facilitar o acesso a universidade de alunos portadores de deficiências físicas; entretanto, nossos departamentos não estão preparados para receberem os alunos portadores de deficiências visuais, mesmo que sendo estabelecido por lei a obrigatoriedade de tal adaptação. Seria justo interromper as obras na USP que visam facilitar o acesso de deficiente físicos visto que elas não contemplam os deficientes visuais? É justo suspender a política de cotas porque ela não da conta do todo?

Para aqueles que não sabem, as universidade públicas brasileiras possuem cotas para estrangeiros. E porque não se levantaram contrários? É que a questão dos negros para muitos deve permanecer como está; todos acreditando no mito da nossa “democracia racial” onde somos felizes, pacíficos e ordeiros, e só não se consegue a felicidade, satisfação econômica e realização de sua pessoa enquanto cidadão e ser humano, aqueles que não batalham por ela, pois as condições estão dadas “igualmente” para todos; Papai Noel e coelhinho da páscoa também existem.

No mesmo artigo o autor ainda finaliza suas idéias rechaçando as pessoas que fazem uso de roupas com dizeres do tipo “100% negro”, “preto brasileiro” ou “afrobrasileiro negão”, alegando que isto também seria uma forma de manifestação de racismo, só que de ordem invertida. Estranho, quantas pessoas não desfilam entre nós com camisetas do tipo “MedicinaUSP”, “Poli USP”, “Mackenzie”, “PUC”, “UNIUBE” e não os tratamos como racistas, apesar de a todo momento afirmarem sua condição de superioridade educacional. É racismo a afirmação da cor que traz na pele? Não existe uma negação do outro, mas uma afirmação da condição que sou. Se me afirmo como Universitário, tranqüilo; se me afirmo como Negro sou racista???? Colocação absolutamente infeliz, que infelizmente faz parte do ideário comum e não apenas de nosso colega em Uberaba.

Não se trata apenas de uma resposta do artigo citado, mas sim da colocação dos vários temas que permeiam e ocultam as discussões sobre o preconceito e o racismo no Brasil do qual a política de cotas é apenas uma parte, mas que forçosamente por parte de alguns vem se transformando no todo.

Acredito plenamente que o ensino no Brasil deva ser repensado e reformado como um todo, garantindo uma melhoria na qualidade do ensino aplicado a comunidade carente que é a maioria deste país. O que não posso aceitar é que a espera da realização disto sufoque a questão da segregação racial das universidades públicas brasileiras. Assim como o negro, também estão os índios e minorias também discriminadas, que a exemplo do ocorrido com os movimentos negros, também tem o direito de reivindicar seus direitos e fazer valer sua voz.

Não acredito que a política de cotas seja um fim em si, muito pelo contrário, é ela que está estimulando todo o debate em torno do racismo no Brasil, e é a partir destas discussões que nascerão os rumos de muitas questões que hoje se colocam quase sem solução. O que não gosto de observar é o reducionismo a que certas pessoas submetem as cotas, o racismo e o negro no Brasil.

Apesar de se chamar Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo, o NCN atende em suas dependências, populações carentes oferecendo várias atividades e cursos tais como línguas (Espanhol, Inglês e Yorubá), Alfabetização de adultos e um cursinho comunitário pré-vestibular que busca a inserção dos alunos carentes oriundos em sua maioria de escolas públicas nas Universidades Públicas brasileiras, alunos estes que são atendidos independentes da cor que tragam em sua pele, nos mostrando uma fácil lição, na qual se configuram como um centro de referência contra a discriminação Racial no Brasil e na luta pelas cotas, e trazem em seus projetos alunos das mais diferenciadas raças.

Àqueles que ainda insistem em perguntar, para seus padrões de cores eu sou classificado como branco e não estou legislando em causa própria, mas em função daquilo que considero justo.


[1] Rodrigues, Rodolfo. O Racismo está na moda in “Revelação – Jornal-laboratório do curso de Comunicação Social” . Universidade de Uberaba, abril de 2003, pág. 8.
www.klepsidra.net

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011